Poemas do século XVI

 

Luís de Camões


Esparsa ao Desconcerto do Mundo

 

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.

 

Projecto DesConcerto do Mundo – Música de J.R. Fontão

Cantiga

Descalça vai para a fonte

Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

 

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa, e não segura.

 

Descobre a touca a garganta,
cabelos d’ouro o trançado,
fita de cor d’encarnado,
tão linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.

 



Música de Mário Pinto-Gráficos NET

“Lianor”, interpretação de Amália Rodrigues

Vodcast relativo à análise estilística e ideológica do vilancete – trabalho de H. M. Coutinho e G. Teixeira

“Descalça vai para a fonte” de Camões

 

Versão de António Cabral, cantada por Francisco Fanhais (1970)

 

Descalça vai para a fonte

I

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
vai formosa e não segura.

II

Se tivesse umas chinelas
iria melhor…, mas não:
c’o dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.

Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol já se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura…
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.

Há verdura pelos prados,
há verdura no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
cantas, livre, um passarinho.
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.

Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia… virá…

Os olhos voam na altura.
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.

Versão de António Gedeão

 

Poema da autoestrada

 

Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

Leva calções de pirata,

vermelho de alizarina,

modelando a coxa fina,

de impaciente nervura.

como guache lustroso,

amarelo de idantreno,

blusinha de terileno

desfraldada na cintura.

 

Fuge, fuge, Leonoreta:

Vai na brasa, de lambreta.

 

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pela cintura.

Vai ditosa e bem segura.

 

Como um rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que se enterra.

Tudo foge à sua volta,

o céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta,

lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos

já nem percebe Leonor

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.

 

Fuge, fuge, Leonoreta

Vai na brasa, de lambreta.

Poesias Completas

 

 

 Trovas

a ũa cativa com quem andava d’amores na Índia, chamada Bárbora

(Endechas a Bárbara escrava)

 

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

 

Ũa graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbora não.

 

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva.

Zeca Afonso

Sérgio Godinho

 

 

Sá de Miranda

 

Comigo me desavim

 

 

Comigo me desavim,

sou posto em todo perigo;

não posso viver comigo

nem posso fugir de mim.

 

 

Com dor, da gente fugia,

antes que esta assim crescesse;

agora já fugiria

de mim, se de mim pudesse.

Que meo espero ou que fim

do vão trabalho que sigo,

pois que trago a mim comigo,

tamanho imigo de mim?

 

Maria Bethânia canta “Comigo me desavim”