Poemas de David Mourão-Ferreira

 

 

Maria Lisboa   

É varina, usa chinela,
Tem movimentos de gata;
Na canastra, a caravela,
No coração, a fragata.

 

Em vez de corvos no xaile,
Gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
Baila no baile com o mar.

 

É de conchas o vestido,
Tem algas na cabeleira,
E nas veias o latido
Do motor duma traineira.

 

Vende sonho e maresia,
Tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria,
Seu apelido: Lisboa.

 

In Obra Poética

Amália Rodrigues canta “Maria Lisboa”

 

Mariza canta “Maria Lisboa”

 

 Escada sem corrimão

 

É uma escada em caracol

e que não tem corrimão.

Vai a caminho do Sol

mas nunca passa do chão.

 

Os degraus, quanto mais altos,

mais estragados estão.

Nem sustos nem sobressaltos

servem sequer de lição.

 

Quem tem medo não a sobe.

Quem tem sonhos também não,

Há quem chegue a deitar fora

O lastro do coração.

 

Sobe-se numa corrida

Correm-se perigos em vão.

Adivinhaste: é a vida

a escada sem corrimão.

 

In Obra Poética

 

Camané canta “Escada sem corrimão”

 Abandono

 

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.

 

Levaram-te, a meio da noite:
A treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
E nunca mais se fez dia.

 

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar.
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar.
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar

 Amália Rodrigues canta o “Fado Peniche”